Corpo de trabalho


Corpo de trabalho (this is your doom) / Air dry clay, wood and sweet potato



Corpo de Trabalho é um objeto que traz alguns conceitos sociais e simbólicos contrapondo com um sistema estético clássico em decadência. A ideia do corpo grego perfeito, do conceito da beleza pura como arte e também como ferramenta social, que até hoje é impactado como padrão estético.

Existe um conflito conceitual entre a imagem e o discurso. A batata doce, o homem musculoso, a postura corporal que remete ao fisiculturismo, são elementos populares contemporâneos de um ideal estético, de uma busca por um corpo ideal artificial. A academia de musculação trabalha cada músculo de forma sistemática, através da repetição, para chegar em uma estética definida. É um paradoxo porque existe esse conflito entre o carregamento de peso como trabalho, a ideia do trabalho manual semi escravo, que trabalha o corpo de forma penosa e as vezes chega no mesmo ideal fisico. Dentro desse outro espectro do ideal, você se alimenta desse trabalho, e de forma alegórica vira esse ideal, que socialmente é um ideal de sofrimento. Enquanto um trabalho é árduo, sob o sol ardente, de outro lado é hedônico e artificial, que causa sofrimento e frustração também, só que por motivos estéticos e culturais. Não deixa de ser um trabalho porque o corpo é também um produto nesse caso. Enquanto uns ganham para carregar peso, outros pagam, e se alimentam das batatas como ciclo paradoxal.

O corpo exposto no meu trabalho, que faz uma alusão as estatuas gregas, não é perfeito, ele tem vácuos, não é simétrico o suficiente, é disforme. Existem sim rastros de um corpo ideal não alcançado, que remete a essa decadência de valores e dessa busca quase inalcançavel. Além disso ele sai da intenção somente e acumula as funções de carregar o peso (como função cultural, para a estética), e a de sentar (como função social, de servir a alguém), se tornando o que eu batizei de Cabideira.

Bodywork is an object that brings some social and symbolic concepts in opposition to a classic aesthetic system in decadence. The idea of the perfect Greek body, the concept of pure beauty as art and also as a social tool, which until today is impacted as an aesthetic standard. There is a conceptual conflict between image and discourse. Sweet potatoes, the muscular man, the body posture that refers to body - building, are contemporary popular elements of an aesthetic ideal, of a search for an artificial ideal body. The bodybuilding academy works each muscle systematically, through repetition, to arrive at a defined aesthetic. It is a paradox because there is this conflict be - tween the burden of weight as work, the idea of manual labor semi slave, that works the body in a painful way and sometimes arrives at the same physical ideal. Within this other spectrum of the ideal, you feed on this work, and allegorically turns to this ideal, which socially is an ideal of suffering. While work is arduous, under the burning sun, on the other hand it is hedonic and artificial, which causes suffering and frustration as well, only for aesthetic and cul - tural reasons. It is still a work because the body is also a product in this case. While some earn to carry weight, others pay, and feed on potatoes as a paradoxical cycle. The body exposed in my work, which alludes to the Greek statues, is not perfect, it has voids, is not symmetrical enough, is misshap - en. There are traces of an ideal body that has not been reached, which refers to this decadence of values and that quest almost un - attainable. In addition, it comes out of intention only and accumu - lates the functions of carrying the weight (as a cultural function, for aesthetics), and of sitting (as a social function, of serving someone), becoming what I christened as a Hanger.




Após ter virado um - alojamento de baratas e ter tido seu corpo deformado por inseticida, descartado, desprezado e desapropriado da sua própria existência, de alguma forma, renasceu no Viaduto 9 de julho, no meio das eleições presidenciais de 2018, virou altar, escolheu seu próprio destino, sua própria retórica, não é mais meu, não é nem mais uma cadeira, muito menos uma obra sobre as formas de desejo e poder, tomou forma e função própria. Se descolou da sua finalidade inicial e se redemocratizou, eu respeito. Me senti estranho ao ver, passei um tempo tentando entender, e depois senti uma coisa boa. Diante dos novos tempos escolhi acreditar que virou um simbolo contra o autoritarismo. Pensei, a gente fala tanto na liberdade do pensamento, será que exercitamos essa possibilidade em todas as instâncias do cotidiano? É verdade quando falam sobre ter que ser uma vigilância diária.

After having turned a cockroach shelter and had his body deformed by insecticide, discarded, scorned and expropriated of his own existence, he was reborn on the Viaduct on July 9 amid the presidential elections of 2018, turned altar, chose his own destiny , his own rhetoric is no longer mine, it is no longer a chair, let alone a work on the forms of desire and power, took form and function of its own. If it took off from its original purpose and redemocratized, I respect. It was strange to see, I spent some time trying to understand, and then I felt a good thing. Before the new times I choose to believe that it has become a symbol against authoritarianism. I thought, we talk a lot about freedom of thought, do we exercise that possibility in every instance of daily life? It is true when they talk about having to be a daily vigilance.





Marker
CARGO COLLECTIVE, INC. LOS ANGELES, CALIF. 90039—3414