Sapateado

Acervo - São Paulo, Brasil / 2022
curated by Ainda





Sapateado
Natalie Braido

Nas amálgamas das algemas, dos pares, dos díspares, dos opíparos, dos ovovivíparos, dos ovíparos e originários, a dança é o que junta e faz uma braçada no vento virar galho de árvore, virar ao avesso, ao contrário, ao contra-colateral. “Don’t Say I Didn’t Say So”, fala o papagaio de Marcel, que aqui vive de gaiola aberta, sobe ao segundo andar e bica os filhos de alguém, que se assustam e olham para a câmera. Em outros países as crianças não se assustam com papagaios, pois eles permanecem presos. Não diga que eu não disse.
Caber em outros sapatos é difícil, às vezes eu vestia as roupas ao avesso, dava corda nos pés e caminhava. Quando calçava sapatos maiores costumava tropeçar e rir, quando usava sapatos menores não andava muito, mas quando torcia ao avesso era porque estava convidado a sair de noite, de cartola, gravata branca e fraque.

Cruzava a rua do Camerino, perto do trem, para atravessar ao outro lado da ponte. Mas isso já faz meses e daqui a pouco fará anos. Na frente de casa agora existe uma loja de pijamas e fronhas. Há mais de dois anos que tudo mudou, e três anos que conheci vocês três. Os anos 20 foram famosos pelo sapateado, já fazem 100 anos desde os anos 20. Esses dias vi o “Stair Dance” de Bill Robinson, me lembrei da dança das cadeiras e de sem querer cair de bunda no chão. Nada me é muito diferente do que aconteceu antes e do que acontece agora. Anos frenéticos, talvez parecidos a outros tempos. Parabéns. Fred Astaire disse que “sapatear era parecido com cavar valas”, sapatear então não me é tão estranho assim.

Não diga que eu não disse: é o ânimo que move, não são as quantidades de passos, as oxigenação e sei lá, qualquer contabilização que se quiser fazer. Cala a boca papagaio! Tudo é banal até a contagem dos ponteiros e dias, todos os compromissos e convenções. Quantas pétalas de bem-me-quer desperdicei? Máquina de lavar com tentáculos, tambor, barriga de cavalo, cobra na bota, cristal escuro, celeiro de signos, vestíbulo, caminho que cabe em um quadrado, 760 passos confinados, pandeiro, solado, gravata, cavalgada: disso ninguém quer saber, coloque as calças e aprenda a dançar conforme a música.
Quando criança dançava escondido.

Todos me conheciam, dizia: oi, olá, opa, quase tropeçando as palavras. Me recompus da apresentação, olhei para a mesa que sempre gosto de comer e fui me sentar. Tenho o hábito de tirar os sapatos para comer, parece que a circulação melhora. Era um sábado ensolarado, serviam fígados, figos e sementes de girassol com batata em uma travessa marrom. Do lado oposto de onde cheguei, andava uma cobra na minha direção, me olhou, e se escondeu em minha bota. Estava quente, olhava e comia conforme ela aparecia e desaparecia, meu buço soava, meus pelos todos franziam, da sobrancelha até a churreia.
Em 1901, com 13 anos, Anita se deitou debaixo dos dormentes da linha do trem na Barra Funda, para viver uma experiência de quase morte. Amarrou as tranças, e quando o trem passou teve uma experiência horrível, asfixiante e barulhenta. Disse que viu muitas cores atravessando no escuro. Se rendeu à sensação, e daí que a pintura lhe fez sentido, queria dedicar-se a isso.

A imagem-pensamento aparece mesmo com a asfixia do novo corpo. O corpo ativo, 24/7, tela total, tela ligada. O eco só se cria com o oco. A Anitta em 2022 diz: “vocês pensaram mesmo que eu não ia rebolar minha bunda hoje, né?”
O interesse da pintura como um lapso de acontecimento, revelação, pausa. O sonho é uma espécie de PgMWNRO-metamorfose, troca de pele, troca de lugar, construtivo de sabe-se-lá-o-que, do devir. A imagem cola na retina.

Amálgama é processo morfológico: flor que vira braço que vira vela, luz. Wildfire,1986, o refúgio no mundo mortal-material está em movimento. Zig zag, trote, escada em u. Imagem inversa. Avesso das palavras entrecruzadas. Cobras e cavalos não usam sapatos.
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